Bibliografia Teogonia Matrizes

Bibliografia Teogonia
Texto primário:
HESÍODO Teogonia. Tradução de Christian Werner. São Paulo: Hedra, 2013.

Textos secundários:
BRANDÃO,  J. “As musas ensinam a mentir” in: Antiga Musa (arqueologia da ficção). Belo Horizonte, Faculdade de Letras da UFMG, 2005.
DETIENNE, M. “Memória do poeta” in: Mestres da verdade na Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
DETIENNE, M., VERNANT, J.P. “A conquista do poder” in: Métis: As astúcias da inteligência. São Paulo, Odysseus, 2008.
ELIADE, M. “A estrutura dos mitos” in: Mito e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2008.
RICOEUR , P., et al. Grécia e Mito. Gradiva.
VERNANT, J.P. “Prometeu e a função técnica” in: Mestres da verdade na Grécia antiga. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

Música trágica

Como é sabido, a tragédia grega pode ser definida como uma “representação dramático-coreográfico-teatral”, onde a cenografia é apenas um de seus elementos constitutivos. Tradicionalmente, graças à autoridade de Aristóteles (Poética 1450b) tanto os elementos musicais, quanto mesmo os cênicos, foram considerados de menor importância na composição trágica. Mas, ao contrário do que essa leitura tradicional dá a entender, a música tinha um papel muito importante na tragédia. Com efeito, sabemos de tragédias que foram apreciadas especialmente pela sua música, como a Antíope de Eurípides, bem como diversos textos devotados especificamente à música trágica, textos esses que, infelizmente, foram de todo perdidos para nós. Como diz Wilson (2013: 183): se perguntado, um ateniense diria que iria ao teatro para “ouvir música”.

Felizmente, é possível para nós saber quando a música intervinha na tragédia. Essa informação pode ser retirada dos metros. A tragédia, como é sabido, contém uma variedade de metros, cada um corresponde a uma determinada prática musical antiga. Exclusivamente não-musical é apenas o trímetro jâmbico, o “arroz com feijão” da métrica da tragédia. Esse é o metro principal do diálogo e, de acordo com a maior parte das opiniões (como de West M. L. Greek Metre, p. 78) o único que não possuía nenhum acompanhamento musical.

Outros tipos de metro requerem tipos variados de música, dois tipos de versos, o tetrâmetro trocaico e o anapesto, também associados à recitação, parecem que estão ligados a algo parecido com o recitativo na ópera contemporânea, ou mesmo ao Sprechgesang da música moderna da escola de Viena. Destes, o anapesto está associado aos movimentos do coro, que os recita tanto a entrar, quanto a sair da orquestra. Já aqueles que chamamos de “líricos” (que, por sinal, é um nome falso, visto que a tragédia nem sempre era acompanhada por lira, enquanto o aulos era presença constante) eram os versos dedicados à canção mais explícita. Os metros líricos são os metros próprios do coro quando ele estava em cena e são uma das características mais específicas da tragédia grega. No entanto, não apenas o coro tinha passagens líricas, com frequência, os atores cantavam, seja sozinhos, seja em resposta ao coro, seja em duetos com outro ator. Algumas das passagens mais famosas e dramáticas das tragédias foram compostas nessa maneira. Por exemplo, tanto a cena da entrada de Cassandra no Agamêmnon (vv. 1073-1177), quanto o diálogo entre Clitemnestra e o coro, depois da morte de Agamêmnon, na mesma tragédia (vv. 1407-1576), são cantados. Igualmente, o lamento de Édipo depois da descoberta de todas suas desgraças e de se cegar, no Édipo Rei, é cantado do mesmo modo.

Um bom autor (quase sempre o autor do texto era também responsável pela música) tinha enormes possibilidades artística com o uso da música. Nós,mesmo sem termos a música, podemos identificar alguns usos específicos do autor e uma carga expressiva associada a seu uso. Um exemplo, citado por Wilson, é o do canto lírico de Creúsa na tragédia Íon, de Eurípides. Nesta tragédia, a cantora entoa um verdadeiro Peã ao acusar Apolo dos males que ela sofreu. Pode-se ter uma ideia da ironia e o poder patético dessa cena mesmo sem ter a música. Dessa maneira, a música é um elemento central de toda tragédia grega e em muitas maneiras ela produzia efeitos estéticos deliberados pelos autores. Até hoje, um estudo da influência da música no texto de cada tragédia ainda está por se fazer.

Recentemente, contudo, tem havido uma nova ênfase nos estudos clássicos, no sentido de se avaliar uma obra literária dentro de seu contexto. E esse contexto, no mundo grego, significa compreender a performance, uma vez que quase toda literatura grega, até o período clássico, foi concebida para ser representada. Dessa maneira, muitos estudos recentes se voltaram para essa área de estudos, alguns, como os dois livros de Oliver Taplin, The Stagecraft of Aeschylus  (Oxford University Press, 1990) e Greek Tragedy in Action (presente na bibliografia geral), são essenciais para qualquer um que estude tragédia antiga. Aqui no Brasil, é importante lembrar o livro de Daisi Malhadas, que, com bases bem distintas das de Taplin, também discute a importância da performance para a tragédia grega.

Esses estudos, contudo, têm pouco a dizer do papel da música na tragédia, uma vez que estão mais centrados em aspectos cênicos, e não musicais.

Temos outras informações, por outro lado, dos estudos relacionados a música antiga. Estes nos informam sobre as práticas musicais, a maneira de notação e a teoria musical antiga como um todo. É um assunto complexo, do qual eu não tenho muitos conhecimentos e não posso entrar em muitos detalhes.

Esse trabalho permite-nos interpretar os poucos fragmentos de música antiga que possuímos. Com efeito, os antigos tinham um sistema de notação musical totalmente diferente do nosso. A notação não é tão precisa quanto a nossa (limita-se ao que chamamos hoje de melodia) e ela tem pouquíssimos exemplos. Apenas alguns monumentos e papiros em ruínas. De tragédia, em especial, possuímos dois fragmentos identificáveis, ambos de Eurípides. O primeiro é do Orestes e temos aqui uma boa gravação:

Os versos cantados são do párodo da tragédia:

κατολοφύρομαι κατολογύρομαι
ματέρος αἷμα σᾶς ὅς σ᾽ ἀναβαχεύει.
ὁ μέγας ὄλβος οὐ μόνιμος ἐν βροτοῖς
ἀνὰ δὲ λαῖφος ὥς τισ ἀκάτου θοᾶς
τινάξας δαίμων κατἐκλυσεν δεινῶν
πόνων ὡς πόντου λάβροις ολεθρἰοι-
σιν ἐν κὐμασιν.

Uma tradução improvisada desses versos pode ser:

Eu lamento, eu lamento
o assassinato da mãe que te fez enlouquecer.
A grande felicidade não é duradoura entre os mortais
Algum deus, chacoalhando como a vela de um barco veloz
fez naufragar em terríveis
sofrimentos como nas furiosas ondas
destruidoras do mar

Trata-se de um fragmento de um dos cantos corais dessa tragédia. É virtualmente impossível saber se a música é a original de Eurípides ou é uma imitação posterior. No entanto, o estilo da música não impõe restrições a se considerá-la original.

O segundo fragmento é mais controverso, visto que a leitura é muito mais difícil e não há certeza sobre muita coisa nele, afora o fato de ser baseado em um trecho da Ifigênia em Áulis.

(A gravação foi retirada do site Graecia Antiqua)

Os problemas com esse papiro são, em primeiro lugar, seu estado fragmentário, como pode ser visto por uma foto:

fr. 510 Leyden

O texto está tão difícil de ler que são necessárias várias hipóteses para a música fazer sentido. Para piorar, todas as soluções propostas não se adequam com o estilo da música da época de Eurípides (Hagel: 357). O que torna sua autenticidade bastante suspeita.

Ambas as execuções, para serem possíveis, necessitam de muita intervenção moderna. Coisas como o acompanhamento, modo de canto, tempo, etc, foram todas inseridas pelos intérpretes, apenas a melodia é original (e no segundo caso com muitos acréscimos). Apesar de todos esses problemas de autenticidade, essa é a única maneira que possuímos de ter algum contato com a música da tragédia antiga.

Mosaico de temática teatral

No museu arqueológico de Patras, na região da Aqueia, na Grécia Central, está exposto um mosaico muito interessante. Tratam-se de duas faixas de imagens, a primeira, superior, representando cenas ligadas ao teatro, e a segunda, inferior, com cenas atléticas. Todas as imagens deste post podem ser ampliadas ao se clicar nelas.

moisaico-geral

Naturalmente, para os propósitos da disciplina de literatura grega II, a parte superior do mosaico nos interessa mais. A leitura que faço do mosaico é que ele representa, à direita, uma cena trágica e, à esquerda, uma cena da comédia nova, evidenciada pela ausência do coro. Prova disso é a presença do coro e de personagens trajados à maneira trágica e de atores com máscaras aparentemente cômicas e trajados de outra maneira. A outra diferença, a presença do aulos à esquerda e não à direita, não é significativa, uma vez que o aulos também fazia parte das representações trágicas.

O detalhe da cena trágica permite-nos ter uma ideia um pouco mais clara de como era uma representação trágica.

atores e coro trágico

À esquerda na imagem podemos ver dois atores, vestidos à maneira trágica, isto é, com um longo χίτων (khiton) de cor laranja e uma máscara trágica. Em comparação com os atores cômicos da esquerda, a túnica utilizada é mais longa, uma marca de diferença entre os dois gêneros. O coro não é representado com máscaras, embora ele também as usasse.  Do coro podemos ver apenas sete membros mas seu número parece ter variado, no século V, entre 50 e 12 membros, diminuindo ao longo do século. Embora longe de estar claro, parece que o ator trágico da direita usa um coturno, a sandália militar elevada, que depois se tornaria um símbolo trágico. No entanto, parece que esse uso é tardio, datando do século II a.C.

Citarista

O coro era acompanhado por um tocador de cítara, que ele segura com a mão esquerda. Na direita, pode ser visto o plectro, instrumento usado para percutir as cordas da cítara.

Aula 1 – Sete Contra Tebas – O ciclo Tebano (24/3)

Sobre o ciclo tebano, o texto utilizado foi o de West, editado pela Loeb. Ciclo Tebano – West 2003

Um bom texto sobre o ciclo épico tebano é este livro de Malcom Davies. Infelizmente, tomei conhecimento dessa publicação depois de proferir essa aula.

Além disso, uma boa coletânea dos mitos é a de Timothy Ganz, no seu livro Ancient Greek Myth, que está na bibliografia geral.